Um Lugar Só Meu
19 de setembro, 2006
Guardei-o no Coração
O P. é trazido ao hospital porque se sentiu mal na escola.
O P. tem sete anos, anda na segunda classe e na realidade é vítima de maus-tratos por parte da mãe e do companheiro, e do pai e respectiva companheira. Há historial de toxicodependência do pai e da mãe e o pai já esteve preso 3 vezes por furto! Existem mais crianças, irmãs do P. e meio irmãos.
Ver o corpo do P. foi um terror. Marcas, cicatrizes, queimaduras e um peso de
O P. não pode ficar comigo. Mas hoje, e certamente noutros dias, vai acompanhar-me... Vais ficar comigo na minha mente e no meu coração. Agora, sinto-me como uma mãe com peso na consciência quando deixa o filho fora de casa sem chave da porta.
17 de setembro, 2006
Ouviram-se Palmas
Ouviram-se palmas e na minha cara estava possívelmente estampado o sorriso mais aberto do mundo... Sentia-me leve, por me ter saído bem a falar de "Acompanhar Sofrimentos".
Neste momento sinto-me eternamente grata a quem me deu a oportunidade de falar da dor de quem acompanha dores tão profundas. Que faz promente tudo, desacreditar em tudo, mudar a vida e mesmo a forma de ser...
Custa-me falar disto, sei lá... ainda não descobri a forma correcta de falar com indiferença. Apesar das repetidas vezes que falei do assunto, da mesma forma, ainda não descobri a forma dele não me tocar. Mas desta vez foi diferente! Era a minha grande prova! A minha vez era depois do almoço, e agitação na plateia era enorme, durante toda a manhã pareciam-me distraídos, faladores, desatentos ... e isso deixou-me nervosa! Palpitava-me que se iam distraír ainda mais quando me tivessem que ouvir. E se assim fosse o que é que eu fazia?!
Depois do almoço chegou a minha vez... A sala muito pouco iluminada como eu tinha pedido. Com a aparente naturalidade (só aparente, garanto), com microfone de mão e de um lado para o outro, irrequieta falo de Dor, como se houvesse uma formúla para a evitar, ou para a ultrapassar... Mas como lhes digo que não há, mostro-lhes o ponto de vista de muitos doentes oncológicos que já passaram pelo meu coração... E falo... Deixo-me levar e falo de tudo o que sei, do que sinto, do que vi e do que vivi... Da plateia, daquela plateia que me deixou nervosa, ouvia-se um silêncio de conforto...
Acabei a sessão, sem luz na sala, a ouvir "Sei lá" de Sára Tavares. Quando a luz se acendeu ouvi palmas e vi muitas lágrimas a lavar alguns sorrisos. Depois vieram os abraços, os agradecimentos e para mim a leveza na alma por ter conseguido! Em primeiro, por ter conseguido sossegar a plateia mais agitada que tivera, e em segundo por nunca ter conseguido falar deste tema de forma indiferente...
Eu agradeci: as palmas, as lágrimas e a atenção... e o sorriso, o meu sorriso!
Uma Roupa Nova
Voltei! Voltei eu e este Blog que já tanto guardou de mim.
Comum a ambos, é o facto de termos mudado, além da imagem,é meu desejo que os textos também mudem! Pretendo mostrar-vos mais de mim como psicóloga!
De mim, quero que vejam que apesar de me derreter e de fraquejar sempre com as mesmas coisas, garanto-vos que, mudei! Que me sinto mais segura! Que a vida me sorri e eu ando a aprender a retribuir-lhe. Que já não só sonho mas tento realizar... Que não sei se sou, mas quero ser feliz como nos filmes. Que não sei como é que se chega lá, mas se descobrir conto a todos os que me seguraram quando as pernas tremeram e quando teimei em fechar os olhos...
Até já
26 de dezembro, 2005
Faz-me Sonhar Contigo
São dias estranhos, estes que me comem o tempo… Que me esbatem os sorrisos e o brilho dos olhos… Que me fazem acordar já cansada e adormecer cada vez menos tempo…
E tu aproveitas esse tempo para me fazer estar mais perto de ti… não me deixas acordar e entras nos meus sonhos… Fazes-me rir e chorar… Fazes-me recordar e fazer da minha vida um filme, e fazes-me vê-la em pequenos retalhos… Vou sorrindo ao ver-me ser pequenina… a não ter tamanho para abrir o frigorífico, a não ter tamanho para abrir a porta, a jogar a bola com eles e olhar para ti com ar deliciado lá longe na cadeira no jardim…
Aquele ar deliciado que punhas quando nos vias a brincar, quando nos vias a sorrir, quando nos sentias feliz… tal como tu quiseste… tal como tu nos fizeste…
Já no outro dia sonhei contigo… Tenho sonhado contigo… E acordo cansada, acordo sempre com a sensação que me vens acordar, como sempre fizeste, e como ninguém sabe fazer como tu… Acordo sempre com a sensação que se me levantar, te encontro pela casa… Acordo sempre com a sensação que me vais fazer sorrir…
É tão grande o aperto, porque sei que não estarás, que se estiveres eu não te vejo… Às vezes fecho os olhos com muita força para ver se ainda te sinto… E sinto! Sinto o vazio que deixaste, sinto a dor de ser verdade a tua partida, Sinto a falta e penso na falta que me fazes… Agora se cá estivesses, sei que me acalmavas, me dizias que ia passar e eu acreditava, sei que me ias dar força e esperança, sei que me ias fazer o bem que ninguém sabe fazer… sei que me ias proibir de pensar no mais fácil… sei que contigo eu conseguia…Sem ti não sei…
Mas obrigado por me fazes sonhar contigo! Obrigado, porque eu acredito que depende de ti… Deixa-me pedir-te que me respondas. Responde-me, mesmo que seja só nos sonhos… Responde-me… Acalma-me! Como só tu sabes… Faz-me acreditar que vale a pena tudo o que eles querem, tudo o que eu deixo fazer… Faz-me acreditar que não é castigo e que tinha que ser assim, faz-me acreditar no destino e nas vidas escritas e destinadas… Deixa-me sonhar contigo que eu quero! Não faz mal que chore, não faz mal que magoe, magoa bem mais não te ter nem que seja só nos sonhos que aconteça... Deixa-me sonhar que eu aguento o aperto da manhã!Mas mais que tudo, peço-te, diz-me o que é que eu devo dizer à mãe para a ver sorrir de novo como tu fazias… Diz-me como é que eu faço para ser igual a ti…
Faz-me sonhar sempre contigo…
18 de setembro, 2005
Momento para Mim
Não há um momento certo, nem um dia marcado!
Não é pre-anunciado por qualquer sinal do exterior.
Nada nas atitudes e na paisagem é diferente do habitual! O sol não me manda recados! Seja como for, eu sinto que chegou o momento. O momento, de me sentar e escrever que chegou o momento!
O momento para mim... de me reencontrar de frente para uma folha, sem ninguém a ocupar-me os minutos, sem mais ninguém a não ser eu própria... Como no melhor dos desabafos!
Estou rodeada... Podem falar-me em voz alta! Não há proibição, podem cantar ao meu lado. Eu não darei por isso, podem ocupar o lugar vazio ao meu lado.
Pego na caneta! Parada por segundos, ouço a música do meu coração! Abro-o e partilho momentos.
Pede-me a mente que seja sensata, que podere tudo o que escrevo! Pede-me que não seja um livro aberto! Pede-me uma decisão e escrita digna.
Mas com que face escrevero assim… Será de dentro para fora ou de fora com o que tenho aqui dentro?!
De repente olho, mesmo na minha frente alguém me olha perplexo, não menos preocupado que eu… mas nem isso me incomoda.
Agora sou eu! Independentemente de qual tenha sido o instinto, a dor ou a angústia do meu inconsciente que me levaram a acreditar que era possível encontrar-me enquanto escrevo…
28 de junho, 2005
Nem tudo é para Sempre
É fim de tarde. A hora começa a chegar… Combinei comigo que embarcava no comboio ao fim da tarde, perto do por do sol.
Durante dias e dias, que na soma dá perto de anos, aliciaste-me nesta tal viagem. Agora e só agora, e porque agora é o tal momento, comprei o bilhete. Escolhi o comboio, escolhi o fim de tarde e tu escolheste ir comigo, eu deixo-te ir.
Falta pouco para a hora marcada.
Saio de casa… Deixo as janelas abertas… Tranco a porta e parto a pé rumo à estação.
Não olho para o telemóvel que mantenho sem som. Não olho para traz que mantenho na memória. E sigo. Imagino-te na mesma direcção que eu, imagino-te mais nervoso que eu, imagino-te com um cigarro na mão e com a mochila nas costas… Imagino-te a fazer o caminho mais fácil, que de certo não é o mesmo que o meu. Nunca foi! Nunca andamos pelos mesmos caminhos!
Imagino-te a passar a estação para o lado de lá pelo túnel subterrâneo. Eu vou dar a volta para me despedir do mar, para respirar o vermelho deste fim de tarde, vou pela luz do dia. Tu vais pelo túnel, e pelo caminho mais fácil. Não te condeno, não posso! Não gostas tanto do mar como eu nem tanto de caminhar como eu.
Sorrio-lhe e viro-lhe as costas…
Qualquer coisa me diz que o túnel é perigoso para ti e não te deixa chegar até mim. Mas eu vou, sabes?! Comprei o bilhete e já programei tanta coisa que não me apetece deixar para depois. Quero tudo aqui e agora, como tu sabes…
Chego e faltam sete minutos para embarcar… E tu? Onde estás? Quantos faltam? Pois, não sabes não é! Nunca viveste com um relógio a contar-te o tempo.
Tu vens, que eu sei… Só não sei quando e nem sei se chegas a tempo. Mas contento-me em saber que vens.
Com o passar das pessoas uma brisa refresca-me a cara e rouba-me o pensamento que já não se prende a ti, nem à viagem, nem sequer aos meus planos… O meu pensamento está ali ao lado, no casal que quase chora! Um deles vai partir, um deles vai ficar… mas nenhum deles se perde! Sabes, acho que vieram juntos!
Do micro alguém anuncia o comboio, eu nem me levanto de tão distraída que estou a vê-los despedir-se.
Na minha cabeça canta alguém com uma voz doce, descalça e diz assim” Sabe bem ter-te por perto, Sabe bem tudo tão certo, Sabe bem quando te espero, Sabe bem beber quem quero (..)Se um beijo é quase perfeito, Perdidos num rio sem leito, Que dirá se o tempo nos der, O tempo a que temos direito”
Ela começa a chorar, devagarinho! Ele limpa-lhe as lágrimas e diz-lhe algo que a faz sorrir. O comboio chega, passa por mim e eu fico com a última carruagem à minha frente. Alguém me ajuda a subir, alguém me empurra… Por cima do ombro olho para traz e penso “que pena é tu não vires”, e vejo-os ainda abraçados, ela a chorar, ele a fazê-la sorrir e a deixa-la sozinha na estação quando salta para o comboio no último segundo.
A porta separa-os. Separa-nos. Sabes, ainda bem! Ainda bem que não vieste dizer-me que tinhas desistido da viagem, porque eu ia chorar. Assim não choro, fico a achar-te cobarde e fico com raiva. Sim, com raiva de ti, por me mentires e de mim por acreditar em ti!
Sento-me! Calma e tranquila mas com raiva! E cada vez mais sinto-me com raiva, estou na última carruagem por tua causa. O fumador és tu e não eu! Estou neste comboio por tua causa e tu não vens, não dizes nada e nem me telefonas. O telefone! Pego nele já a chorar devagarinho! Está a tocar! És tu! Atendo! E tu do outro lado apenas me dizes ofegante, “Sai na próxima estação que eu vou ai ter contigo. Perdi-me no túnel!”
E eu sem pensar duas vezes mal o comboio pára pulo para a calçada! Apanho o comboio que está a chegar do outro lado da linha! Já com menos raiva! Já com menos que te dizer! Ou melhor, vou guardar para te dizer o que sei que posso dizer agora ou daqui a algum tempo! Em ti terá o mesmo impacto! Vou dizer-te que ganhas sempre! E também desta vez ganhaste! Mas eu, atenta bem no que te direi quando decidir, eu irei ganhar tal como tu!
Neste comboio, que me leva de volta a casa, entro, sem me empurrarem, sem ajuda e sem precisar dela! Será tudo isto um sinal do quando errada estava em entrar no comboio que me trouxe?! Não importa!
Sento-me e na minha cabeça ela continua descalça a cantar “Se um dia um anjo fizer, A seta bater-te no peito, Se um dia o diabo quiser, Faremos o crime perfeito”
Mais uma vez foi, quase perfeito!
6 de junho, 2005
A Conversa Por Terminar
Sempre gostei muito de ti. No tempo mais feliz da minha vida tu foste importantíssimo. É certo que nos últimos tempos estavas doente, resmungão e menos contente contudo. Não eras aquele que me acolhia sempre e que acreditava incondicionalmente
Naquela manhã, porém, o teu corpo estava liberto do sofrimento. Depois de uma luta quase ganha contra a doença que te comeu os mais puros sorrisos, achava impossível o que tinha ouvido ao telefone na noite anterior. O coração, aquele que te sabia ser tão grande, pregou-te uma rasteira e para isso tu não estavas preparado. O rosto imobilizado numa doce suavidade. Voltavas de novo a ser tu. E fiquei ali, lado a lado, absorvendo as tuas memórias, a jovialidade que era tua e que ficou também minha, a deixar entrar por mim a dentro o que restava de ti, a continuar a conversa que se tinha interrompido. Passavam por mim as histórias antigas, as dores, as alegrias, a luta, o cansaço, e a esperança também. Esperança… de quê?! Do teu sofrimento? Não, talvez a esperança de que eu fosse a tua eternidade. Já que seria esta a tua esperança, isso serei.
Durante alguns tempos, vivi aquela saúde eterna que era a tua, antes da doença que eu recusei a ver e da morte que não existiu, pois a tua vida continuou
Soube a alguns tempos que estava doente. Esconderam-me a verdade e deram-me um tratamento que me poderá agarrar por toda a vida. E tu apareceste-me nos sonhos. Mas eras tu doente, o dos últimos tempos… como tu, tornei-me medrosa e agreste. Mudei muito. Ainda não fiquei como tu, mas à minha maneira sei que tenho a morte pela frente. Como pensarias tu? Faço por entender-te, porque não é fácil descobrir que o nosso corpo é frágil e efémero. Tentei como tu dar respostas tortas. Mas só apanhei devolvido tudo o que usei como defesa. Os amigos não entendiam. Estou como tu…
Virei-me para dentro. O que não funciona bem dentro de mim? Quais são os sinais que já tenho dessa morte certa? O coração? Os pulmões, a fraqueza das pernas? Não os controlo mais, já não me levam aonde ia dantes. Estou assustada. No outro dia sentia-me ofegante, a ferver por dentro, descontrolada. Sentia-a bem perto, o corpo já não obedecia ao meu querer. Entrei
Eu sei que não me podes ouvir, mas ficaram cá dentro algumas palavras que nunca te disse. Talvez tas pudesse ter dito, antes de me deixares. Mas não disse, como também deixei de falar contigo quando achei que já não me ouvias. Peço que me desculpes. Eu era então menina para perceber que a vida não é só feita de alegrias, que também há sofrimento na vida. E como tu sofreste! Mas eu não podia crer, era como se me quisesse convencer que vivia a sonhar. Apenas me defendia e defendia, pensava eu a tua imagem. Mas acho que agora que, fugindo de te falar, te recusei o apoio que esperavas e a grande força que te ligava à vida.
Devia ter falado contigo. O que sentirias tu, já doente, como te vias, a ti e a nós, como te recordavas do teu passado, como vias tu o teu futuro. Esse futuro de mês a mês, de dia a dia. Como para ti era maior aventura chegares ao fim do mês ou escalar a maior montanha. Será que vivias dessas pequenas coisas mas grandes aventuras? Será que nós, de vez em quando, temos que viver assim e nem sempre ter o céu como limite? Custa-me pensar assim, mas é isso que tenho concluído. Não te dei a oportunidade de mo ensinares.
Na noite passada sonhei contigo. Estavas doente, com o olhar triste, uma lágrima no olho, olhavas para mim com alguma pena mas ternura também. O que terias para me dizer? Talvez que visse bem os atoleiros onde me ia metendo. Talvez que nem tudo são histórias de fadas e heróis. Talvez que em certos tempos, quando nossos recursos são fracos, tenhamos que baixar a nossa fasquia e, mesmo assim, pedir ajuda aos outros. Eu podia bem ajudar-te e acho que não o fiz. Levaste essa mágoa para o túmulo, mas tenho a desculpa de não mo teres ensinado, menina ignorante que era eu. Desculpa-me porque não querer acarretar esse peso. A partir de agora vou estar mais atenta e fazer com outros, o que não fiz contigo.
Sei que me perdoas. Eu quero viver com a recordação da tua pessoa inteira. Aquela que nasceu, cresceu, viveu, teve o seu ocaso e morreu. Não quero forçar mais uma vida virtual que não pode existir senão na minha imaginação. Fico com a tua experiência e ensinamentos, mas quero estar em paz com a tua condição de mortal, que é também a minha.
12 de janeiro, 2005
Só Três Coisas!
À umas semanas atrás, quase caí na tentação de escrever ao Pai Natal. Queria pedir-lhe. Queria achar possível ele dar-me. Mas não, para isto, como para outras milhentas coisas, não arranjei tempo, não tive tempo… Desculpa Pai Natal, perdoa-me por não acreditar na possibilidade de acreditar em ti…
Não acredito no Pai Natal mas acredito em Anjos e Fadas… A sério que acredito!
Não escrevi ao Pai Natal mas pedi a um Anjo tantas coisas… Pedi-lhe sorrisos, Pedi-lhe muitos motivos para sorrir…O resto eu procuro!
Nesta altura do ano, sinto uma energia renovada. Seja porque é altura de prometer emendar tudo aquilo que sinto que está por emendar, seja porque desato a fazer coisas que ando a adiar eternamente ou seja pelo que for, a verdade é que os primeiros dias do ano são contagiantes.
Hoje acho possível não fazer tudo da mesma maneira, não voltar a consentir a mesma preguiça e falta de iniciativa. Acho possível não bater contra tudo logo pela manhã. Acho possível não voltar a acordar mal disposta. Acho possível voltar a não ser injusta, quero tanto isso! Acho possível não sentir tanto a tua falta, de coisas, de mim e de vontade. Acho possível ter mais tempo para tudo e acima de tudo acho possível acreditar mais em tudo.
O pior é quando este efeito se desvanece e volto a achar tudo errado. A fazer tudo da mesma maneira. Ou, por outras palavras, quando sem dar conta esqueço tudo aquilo em que secretamente apostei e deixo amolecer a vontade e as forças.
Lembro de um dia enquanto esperava a meia-noite ao teu colo me perguntares se tinha escolhido já os meus desejos para o novo ano. Sim, eu sei que sabias que peço sempre demais, que peço e prometo tanta coisa que por vezes me esqueço. Na loucura dos outros fizemos silêncio e partilha, disse-te que sim, juntei as mãos em forma de concha junto ao teu ouvido e desvendei tudo o que permanecia escrito num diário imaginário, por ordem de intensidade de vontade e de desejo, do mais forte e importante, ao menos importante mas também desejado. Sorriste para mim e cansaste-te a ouvir-me, achei eu na altura! Mas agora como entendo cada palavra tua nos momentos seguintes. Arrumaste-me no colo e quase que a embalar-me explicaste que o ideal é pensar em poucas coisas de cada vez e nunca mais de três. Fizeste-me acreditar que se escolhêssemos criteriosamente o que queríamos mudar ou melhorar e que se me aplicasse exclusiva e escrupulosamente naquilo que escolhesse não teria tendência para a dispersão e assim evitava acabar fatalmente com uma sensação de frustração que me poderia levar a baixar os braços e desistir.
Nesse final de ano não te entendi muito bem, não percebi o significado de pedir e prometer pouco quando podíamos fazer e prometer tanto! Afinal ninguém nos ia cobrar nada, eram só desejos que se fossem realizados tanto melhor…
Lembro-me tão bem disto…. Tão bem! E agora, hoje, como entendo isto… por isso este ano escolhi três coisas!
Com força, com o pé direito, com o copo na mão, em cima de uma cadeira e com... força, pedi que este ano fosse só, e tão só, infinitamente melhor que o velhinho. Pedi para que nada fosse apagado da minha memória e do meu coração. E pedi para tu continuares comigo… connosco, como sempre!
Este ano quero acreditar na possibilidade de estrear um ano novinho
Três coisas, só três coisas!
Depois, esqueci-me de como não me gostas de ver. Quase me envergonho pela quase certeza de me teres visto assim … Eu também te vi sem te ver, pela primeira vez à minha beira, do meu lado, desafinado as regras da razão. O relógio mostrava-me que eram quase nove da manhã e tinha a maquilhagem borratada de tanto chorar. As horas desta madrugada tinham-me deixado assim, frágil, bem frágil. As horas da madrugada tinham-se colado às do dia e tinham-me deixado sem um minuto de sono, o coração estourava-me pelo peito, ainda com brilhantes da noite mágica.
Voltei a recordar aquela passagem de ano. Também nesse ano chorei… já nessa idade chorava muito, aprendi a chorar muito cedo, devia ter dez anos na altura. Certo?! Mas tu estavas lá, para apaziguar tudo que elas traziam.
Mais tarde perto dos dezasseis anos, descobri as lágrimas silenciosas. Sabes que poucas vezes me apaixonei a sério, mas apaixonei-me e sofri, algumas vezes pensei que ia morrer de amor, pensei que não aguentava tanta dor e tristeza. Mas tu estavas lá, de novo, para apaziguar tudo o que elas traziam.
Hoje de manhã, deitei-me a olhar para o céu, fechei os olhos e vi-te sem te ver… senti-te ali ao lado… conversei tanto contigo, contei-te tudo o que vai cá dentro… mostrei-te como cresci, cresci tanto!
Andei perdida à procura de respostas e queria tê-las depressa. Agora menos perdida, continuo à procura de respostas, sabes que sou mesmo assim, quero tudo e quero sempre já, e tem que ser agora, senão o mundo ainda acabava e para mim quase que ainda nem começou.
Esperei uma resposta, um sinal que fosse, uma expressão, qualquer coisa! Mas tu falhaste, nem um sinal, nem nada! Então chorei, chorei e tu desta vez não estavas lá mas, apaziguaste a dor mesmo assim!
Esse foi o nosso mais mágico momento, quando te senti sem te ter... De repente saltaste rumo aos céus, por escassos milésimos de segundo imaginei ver-te, ficou registado numa fotografia só minha que a partir de hoje vai adormecer e acordar todos os dias comigo. Hoje fizeste crescer asas no meu coração e no espírito. Agora voaremos juntos, nas minhas palavras e nos teus silêncios, entraste-me pela vida adentro, com a sabedoria de um mestre bem comportado, ensinaste-me palavras novas e fizeste-me pensar que na vida só existem meia dúzia de coisas importante e que o resto apenas serve para nos desviar do essencial. Por tudo isto, não te deixaria ir embora. Por tudo isto, ainda te oiço, ainda bebo da tua frescura, ainda me rio com as lembranças do teu sorriso,. E verdade que já não me enrosco nos teus braços mas sinto-me lá, tal qual quando tinha seis anos e depois vinte... Sempre! Como foste a cada passo meu uma companhia e um apoio, um refúgio e um escudo. Ainda te sinto dar-me a mão e sussurrar ao ouvido que sim … isso sinto sempre!
15 de dezembro, 2004
Pequeno-almoço na Foz
Logo pela manhã, um pequeno-almoço na Foz, no café do costume, na mesa do canto, com os meus celebres sete minutos de atraso, os mesmos que os pecados, o teu sorriso, o teu cigarro, os meus óculos escuros e o cabelo molhado a denunciar que o meu atraso nada está relacionado com o transito ou com o estacionamento ou a falta dele. Um bom dia ainda sussurrado enquanto trocávamos um, e só mais um, beijo. No vai-vem do empregado, entre uma torrada, um café e mais um, contamos segredos, trocamos sorrisos, acordamo-nos com poucas palavras e tanta cumplicidade. Quis-te tanto, ali, naquele momento. Gostei do teu mais repetido elogio, gostei do teu habitual perfume, gostei ainda mais da tua voz rouca de sono, gostei da conversa… Gosto tanto da tua calma! Faz-me tão bem! Gosto de começar assim o dia, ali naquele cantinho contigo! Fazemos aquele encontro na clandestinidade, ninguém sabe, não falamos dele! Guardamo-lo, protegemo-lo! Gosto de falar contigo tudo, sei-te inteligente e meu conhecedor como ninguém! Por isso, ali posso contar-te sobre a maior alegria do dia anterior e do meu maior erro! Posso contar-te sobre a última aventura, e sobre a última desilusão! Posso não, preciso! Vou guardando tudo com o pormenor de um documentário no fundo da gaveta, até ao dia do pequeno-almoço na Foz para sentir a tua reacção! Mas acaba rápido! À qualquer coisa lá fora que nos chama!? Será a realidade? Saímos! Faz frio, mas nem ele nos apressa, caminhamos como quem passeia até ao outro lado da rua, o mar rouba-nos as palavras durante minutos… Encosto-me a ti! Sinto-te nas minhas costas! Sinto-me quente, sinto-me bem, tão bem! Sinto os teus braços em mim! Sinto-me protegida, sinto-me bem, tão bem! Sinto-te respirar perto do meu pescoço, perto da minha orelha, sinto-me tremer! Está na hora, vamos?, vamos, temos que ir. E já do outro lado da rua perguntas Almoçamos hoje?, abano a cabeça que não, não dá, e penso que não devias quer sair do pequeno-almoço clandestino tão rápido! Sobrou tanto de tudo o que criamos! De tudo o que fomos! De tudo o que foste para mim e de tudo o que fui para ti! Partilhamos momentos, sonhos, viagens, medos, projectos e aos poucos, como que por erosão, tudo se gastou… Gastou-se o tempo para alimentar os sonhos, para partilharmos momentos, para o partirmos em viagens, para avançarmos com os nossos projectos e o tempo para dividirmos os medos! Aos poucos esquecemo-nos de alimentar o que ainda era tão incerto, aos poucos começamos a conter o que nunca seria guardado em tempos! Foram palavras que no momento certo não saíram, outras que saíram sem serem de todo verdade! Foram dias perdidos e sonhos desfeitos! E ao contrário do que outros pensam o rancor não se alimentou de tudo o que desapareceu! Ficou guardado, são memórias ou recordações! São assuntos sem ponto final, conversas sem uma conclusão! Não te quero da mesma maneira, mas também não te quero longe! Arrumei-te no cantinho da boas recordações e relembro todas as juras que em tempo distantes fizemos… Poderia pedir tudo menos que te apagasses da minha história… Agora pareces-me de novo tu, e não tu nesse tempo! Voltasa fazer-me bem! Tudo isto me faz achar que poderá desta vez ser diferente… Talvez possas renascer aos meus olhos! Pego no telemóvel e escrevo-te o que sei que já leste, mas insisto, “Não sei se todos os sentimentos são recíprocos mas gostava de acreditar que assim é”! Mas desligo logo o telemóvel, não quero ler já a tua resposta. Talvez logo, talvez logo ela não me perturbe tanto, agora sei que não posso!
9 de dezembro, 2004
Satisfação
Na calmaria da noite, levada por pensamentos e memórias, chego à conclusão que não sou infeliz, serei, parece-me, apenas insatisfeita.
Parecendo que não, é uma descoberta importantíssima que faz toda a diferença.
A satisfação, o bem-estar, o contentamento comigo mesmo são sensações que, ás vezes, experimento. Apenas ás vezes, já que nunca consegui ficar continuamente em estado de beatitude.
Esta sensação chega quando eu cumpro uma tarefa, quando satisfaço um desejo, quando descubro que acabei de concluir mais uma etapa, e bem.
Nessa altura, invade-me um gozo manso que me impregna o corpo e a alma e permite saborear a plenitude ou, pelo menos por enquanto, a tranquilidade.
E é assim que agora me sinto… sinto-me a sentir um gozo manso de quem cumpriu uma tarefa e bem.
Também sei que o rola-rola dos dias, deixa-me envolver em cansaço, em tristezas e tricas, em desaires e episódios de curta duração que me roubam a paz e me fazem afastar desta tão boa sensação de que tudo está bem para sempre, mesmo sabendo que não será bem assim.
Sei que posso de novo voltar à angústia, à agitação, à intranquilidade, que parecem saber o caminho para mim, quando as abandono numa qualquer esquina, no meio de uma noite cheia de nevoeiro. Nessa altura, como em outras voltarão a fazer parte de mim, serão meus. Daí a achar que sou de novo infeliz é um passo.
Nessa altura, como em outras, começo à procura de motivos e razões para os meus desconfortos e, como sempre sei que os saberei encontrar, porque quando se procura, encontra-se.
Ás vezes, neste percurso, acho-me infeliz porque sou insuficientemente amada ou apreciada, porque não tenho o que mereço, porque o que me acontece, e o que não acontece fica aquém, muito aquém, das minhas expectativas que tenho sobre o que havia e devia ser.
Procuro sempre estabelecer razões de causalidade para tudo, dou duas hipóteses para o mesmo erro, desculpo sempre por dois motivos.
Enquanto isso mudo, por isso persigo objectivos, por isso vou correndo e empenhando-me.
Mas agora, hoje, reparo que para estar onde estou é porque já tracei e ultrapassei metas, delineei e completei objectivos é, porque alimento sonhos, paixões e desejos. E acima de tudo, porque em outras alturas senti-me insatisfeita ou talvez infelizmente insatisfeita e procurei o esconderijo da satisfação.
Aí, paro. Interrogo-me sobre a finalidade última das coisas. Chego à ideia da insatisfação, e não de infelicidade, que por momentos me percorre, como motor da minha vida e possibilidade de chegar à suprema sensação de satisfação.
Mas agora, hoje, convivo com um agradável sentimento de urgência e de necessidade de ir mais longe, como se alguém, ou alguma coisa me empurrasse numa direcção ou num sentido que, por acaso, desconheço mas aprecio.
Um dia descobrirei que ultrapassei as mais grandiosas expectativas. Ou, então, que terei, aproximadamente, o que desejo.
Satisfação!


